Depois de 6 anos morando fora do Brasil, decidi voltar ao Rio -ainda que de férias - e voltar a ser carioca. Carioca 100% ... afinal, como diz Millôr Fernandes, ¨ser carioca é essencial¨.
Estou aqui em Buenos Aires fazendo minha mala, pensando no que levar para a Cidade Maravilhosa, em pleno fevereiro. ¨Short, biquini e havaianas¨, é o primeiro que me vem à cabeça. Mas logo descubro que nao tenho o último modelo ¨Slim¨ das famosas sandálias que fazem vingar o carioca contra tudo e contra todos e que é hora de fazer uma visitinha à Salinas. ¨Shorts¨... vestidinhos ... e a fantasia de Colombina compro lá na Casa Turuna¨, concluo.
A ansiedade do pré-embarque me fez embarcar numa viagem imaginária de o que é ser carioca e o que quero fazer no Rio.
Ser carioca é primeiro de tudo sentir calor. Reclamar que nunca faz sol e rezar pela chuva na estiagem ¨para ver se refresca.¨ Confesso que o calor me assusta. Falando com minha família pelo Skype, me dei conta que hoje em dia carioca vive pelado, mesmo nas tradicionais festas de Natal e Ano Novo. Os homens mal esperam os convidados de cerimônia irem embora para tirar a camisa e as mulheres usam decotes cada vez maiores e muita criatividade tentando driblar os 40 graus.
Cabelo? Nem me preocupo em cortar o meu para chegar na moda. Carioca vive com o cabelo puxado para cima e preso com o que aparece na frente, seja uma bic ou um grampo de farmácia.
Maquiagem fica aqui em casa mesmo, já que pelo visto o único produto que carioca passa no rosto é filtro solar - isso nos poucos dias de sol.
Jóias? Nenhuma. ¨Será que posso ir de aliança? ¨ - melhor perguntar a alguém que ¨continue¨ casado. Uns brincos grandes com cara de feira Hippie e fitinha do bonfim acho que resolve. Pronto. A indumentária já está.
Bom, levo meu IPod, claro - nao pelas minhas músicas, mas quero carregar o bichinho com músicas fornecidas por minhas jovens primas que me cantam letras de rolar de rir quando nos falamos por internet: ¨ela só pensa em beijar¨ é a mais elegante que escutei até agora. Carioca gosta de funk. Quero ouvir funk carioca, música sertaneja, pagode, samba e o que mais vier cantado em português. Adeus ao tango, a Charly Garcia e música eletrônica de boate moderninha internacional!
E por falar em samba, quero finalmente aprender a sambar. Quando um carioca mora no exterior é frequentemente intimado a sambar durante as festas e aí dou dois passinhos e digo que sou tímida, evitando pagar o maior mico como uma velha sambando com os dedos indicadores para cima e os peznhos deslizando para o lado! Pensei em aproveitar o carnaval para aprender. Nada de desfilar na Sapucaí, aguento no máximo uma frisa como espectadora. Mas me animo a um bloco de rua, claro que dos mais civilizados. Afinal, nao é fácil voltar a ser carioca. Um bloco na beirinha, meio que saindo, meio chegando, perto da ¨saída de emergência¨. Mas corre o risco de eu nao sambar nada, né? É. Uma idéia pode ser a roda de samba de quinta-feira no Circulo Militar da Praia Vermelha. Se eu te ensino a fazer renda você me ensina a sambar?
Ih, lembrei da Lapa. Finalmente me sinto pronta para ir à Lapa - programa que evitei durante muito tempo, traumatizada pelos anos de trabalho na rua Gomes Freire e as tantas enchentes que me faziam sair do edifício carregada por um assistente de estúdio disfarçado de repórter-perigo, com capa de chuva amarela e botas galocha. Carioca frequenta os bares da Lapa e sinto que fazer isso vai ser como uma liberaçao dos fantasmas do passado.
Já que o assunto é programa de índio que pelo visto virou must, quero conhecer a Ilha de Paquetá, nem que para isso seja preciso enfrentar a barca da Praça XV. Carioca vai a Paqueta? Acho que nao, mas, como dizia o adesivo do Rock in Rio, EU VOU. Quero também ir ao Palacio da Ilha Fiscal e tentar descobrir como os bailes do Império se transformaram em Bailes Funk.
Carioca vive de praia e de sol. Na verdade, levanta da cama, abre a janela e aí decide se está de bom ou mal humor. Quero ir à Prainha recordar meus tempos de adolescente que matava aula com os amigos surfistas e se enrolava em cangas balinesas como muçulmana para nao voltar queimada para casa em plena segunda-feira, quero passear no calçadao no domingo e encontrar ¨Deus e o mundo¨ andando para lá e para cá, doar a pontinha da canga para um amigo, tomar água de côco olhando o Dois Irmaos e depois comer aquela carninha da fruta com a própria casca.
Quero tomar chopp no Jobi com exatos dois dedos de espuma sem ter que falar nada com o garçom, caipirinha sem se preocupar se o barman sabe fazer e que nao vai agregar um licor de menta, pedir cerveja e saber que a garrafa vai chegar estupidamente gelada sem ter que implorar por isso, nao ter dúvidas de que a coca light já vem com gelo para a mesa, mate leao sem bombilla cheia de erva saindo pelos buraquinhos, sentar numa mesa de bar num momento de solidao e ter certeza que mais cedo ou mais tarde aparece alguém para puxa papo e arrancar um sorriso do meu rosto. Quando se está fora do Rio muito tempo dá até saudades de peao de obra te chamando de ¨gostosa¨ e de gari te chamando de ¨minha linda¨.
Quero comer bolinho de bacalhau na calçada do Bracarense ou um boteco qualquer, Ovomaltine no Bobs do posto do Mistura Fina, salada de batata frita no Gula-Gula da Anibal, demorar horas para escolher uma vitamina no Balada, sem ter que me contentar com ¨naranja o pomelo¨, comprar amanditas no Posto, picolé de limao da Kibon na praia para tirar o gosto do biscoito Globo, batida de coco do Oswaldo ou de um descendente, brigadeiro enrolado por outra pessoa sem importar se ela lavou a mao antes disso...
Quero comer salsicha recheada na Colombo lebrando do meu avô, carne com molho sem pensar que é pecado disfarçar o gosto da vaca com um molho de mostarda, olhar a Lagoa de um quiosque onde o chique comer em marmita, e na volta para casa, ultrapassar o sinal fechado cantarolando Adriana Calcanhoto,,
Quero falar ¨maix xiado¨ do que nunca, mais cantado do que sempre, com mais R que francês. Quero chamar meu computador de lépi-tópi, fazer píki-níki no Parki Lági, viajar de Várigui tomando guaraná.
Quero passear no Shopping da Gávea num dia de chuva, encontrar um amigo e tomar chopp no Árabe e terminar a noite dizendo ¨passa lá em casa¨, mesmo sem ter casa no Brasil. Carioca marca programa sem combinar dia e hora, chega tarde sem culpa, e se despede sempre dizendo: ¨me liga¨ sem nunca ter dado o número do telefone.
Quero atender o telefone falando ¨alô¨ e nao ¨hola¨ e me despedir com o típico ¨´tao tá ... beiiiiiiiju¨.
Quero andar na Garcia Dávila e tomar um suco de mil frutas, folhear livros na Letras e Expressoes, almocar na Livraria da Travessa depois de ver as novidades em cds, xeretar as lojas do final do Leblon e cumprimentar um artista da Globo que nunca conheci como se fosse um amigo.
Quero fazer escova progressiva em qualquer cabeleireiro sem ter que importar a pasta de formol clandestinamente.
Quero almoçar em casa sem ter que fazer comida, usar uma roupa e saber que no dia seguinte ela vai aparecer lavada e passada dentro do armário, estar morta de calor e ver a Dora aparecer com uma limonada, ouvir a tesoura de minha mae cortando tecidos enquanto vejo novela das oito sem um dia de atraso.
Quero andar nas Paineras e ver ¨verdadeiras¨ palmeiras tropicais, passear no jardim botânico procurando mico em árvore e contando orquídeas, sentir cheiro de jaca no Parque Lage.
Ser carioca é se esquecer que vive na cidade mais bonita do mundo, mas lembrar disso cada vez que volta de uma viagem.
E quando a programaçao acabar, sempre posso cruzar a ponte e ver o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, subir a serra e passar o dia na casa da família em Petrópolis, ou quem sabe, fugir para Tiradentes, Búzios ou Angra.
Quero, acima de tudo, voltar a ser carioca, de corpo e alma. Carioca da gema.
Afinal, os outros que me perdoem, mas ser carioca é fundamental...
pd: este texto contou com a colaboraçao dos amigos do Rio, que por e-mail me fizeram lembrar o que é ser carioca antes de aterrissar no Tom Jobim.
Por; Patricia Salamonde (minha madrinha)